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ORIGENS
Recuando a tempos pré-históricos, à Idade da Pedra, reconhecemos que o território
nacional é fértil em vestígios arqueológicos, sobretudo no que diz
respeito à cultura megalítica, que assume nesta região uma tal variedade e
profusão de formas que houve já quem dissesse ser esta cultura originária da
Península Ibérica.
Os
vestígios mais característicos desta época são os monumentos funerários,
designados por antas ou dólmens, os quais se encontram normalmente debaixo dum
pequeno monte de terra e pedras denominado mamoa.
Relativamente
a Avintes, "Mea Villa de Gaya" (1) diz o seguinte:
apenas
se encontra o topónimo Arcas na freguesia d'Avintes, a probabilisar a localização
de velha necrópole dolmenica. Em muitas regiões do país, arcas e arcaínhas são
synonimos de antas ou dolmens". No entanto, esta referência não nos
parece estar correcta, uma vez que não conhecemos nenhum lugar chamado Arcas,
aliás já o Dr. João Alves Pereira e o Prof. Mendes Correia referiram que se
deve ter tratado dum erro tipográfico, e em vez de Arcas seria sim Areias.
Alguns
documentos medievais fornecem-nos também referências a mamoas, como por
exemplo o manuscrito que trata dos limites do couto de Pedroso: "Em
primeiro que tudo aquele Couto segue para a fonte da Rechousa, junto à
Serpente, depois que a pedra Mamoa, etc.", para além disso, não devemos
menosprezar a toponímia, pois todos os períodos da nossa história nela se
reflectem.
Há
poucos anos, um grupo de arqueólogos coordenado pelo Dr. Victor Oliveira Jorge,
da Faculdade de Letras do Porto, procedeu à escavação da mamoa da Gestosa,
então a única assinalada no concelho de Gaia, vindo a registar conclusões
interessantes acerca do fenómeno megalítico nesta região.
A
concluir, é interessante verificar que em muitos locais onde existiram antas
ergue-se hoje uma capela, ou às vezes, o que é ainda mais curioso,
transformou-se a anta em capela, dando-se assim a cristianização de velhos
cultos pagãos.
A
Idade do Ferro trouxe os celtas e com eles surgiram os castros ou citânias, ou
ainda, como o povo lhes chama, os crastos. Construções fortificadas no cimo
dos montes com carácter marcadamente defensivo: "Em todo o N. de Portugal
apesar das rudes destruições e do natural desgaste erosivo, existem ainda múltiplos
sinais de vida pré-histórica (antas, antelas, mamoas, castros, citânias)
pedregulhada de feição castrense ou alguma vaga tradição de vivência milenária.
Mais do que rudimentares fortalezas, cada citânia e cada castro seria uma espécie
de observatório do mundo". O espólio geralmente encontrado nos
castros escavados tem características neolíticas, como por exemplo os
machados polidos, a cerâmica, as lâminas de sílex e mós do tipo primitivo.
Bem
perto de nós existe o chamado Castro do Guedes. Temos conhecimento que um grupo
de arqueólogos da Faculdade de Letras do Porto, sob a orientação do Prof.
Armando Coelho, escavou recentemente este castro, no entanto, não nos foi
possível colher informações a este respeito, uma vez que as conclusões
deste trabalho ainda não foram publicadas.
Muitos
outros povos nos invadiram, entre os quais os fenícios e os gregos, por volta
do ano 1000 a. C., que se radicaram no N. de Portugal e ai deixaram as suas
marcas ainda hoje bastante visíveis.
Mais
tarde, novas vagas de invasores, cartagineses, romanos e muçulmanos. Vamo-nos
deter nos segundos devido à extraordinária herança que nos deixaram.
Do
séc. II a. C. ao 1 d. C. deu-se a completa conquista e romanização da Península
Ibérica. Os romanos, quando aqui chegaram, encontraram vários povos indígenas
que classificaram. Assim, a Norte do Douro existiam os Gaílaeci, subdivididos
em Lucenses e Bracari, depois do Douro viviam os Lusitani, estes seriam povos
indígenas celticizados.
No
tempo de Augusto, séc. 1 a. C., deram-se as grandes reformas administrativas
que dividiram o que hoje é, grosso modo, o nosso país, em duas províncias,
Lusitania e Baetica, separadas pelo rio Guadiana, estas, subdividiam-se em
conventus para fins judiciais. A Lusitânia incluía o Pacensis, Scallabitanus e
Emeritensis, a actual Avintes pertenceria ao segundo. Outras reformas se
seguiram, mas nenhuma modificou a divisão conventual. Existiam ainda os núcleos
urbanos das províncias, os municipia, as coloniae, as praefecturae e as civ
itates, bem como as zonas rurais designadas gentes. Com o evoluir do tempo, as
civitates e o seu territorium vão acabar por se sobrepor às outras formas,
pois cumpriam melhor as funções de centralização.
"Foi
nesta ambiência de variadas etnias que se desenvolveram as vilías, forma
superior de povoamento e administração romana, núcleos ao torno dos quais se
consolidou a civilização medieval douro-vouguense, fértil de realizações
elevadas: fortalecimento da fé cristã, gosto pela vida ascética e evangélica,
construção de numerosos templos: igrejas, eremitérios e mosteiros, aumento
dos domínios rurais".
Também
no tempo de Augusto iniciou-se a fundação da vilia, onde viviam os senhores
romanos cbm os seus clientes e escravos. Estas eram divididas em sub-unidades
denominadas casales, quintanas ou quintas e vilares, cultivadas por famílias
servis ou semi-servis. Mais tarde, já na Alta Idade Média, estas fracções são
transformadas em prédios independentes. Dentro da vilia encontrava-se o palácio
ou residência senhorial. Esta palavra vai dar origem ao vocábulo paço, tão
nosso conhecido.
A
presença romana em Avintes não está, até hoje, comprovada. E apesar de o
povo falar duma célebre ponte romana sobre o Febros na Ponte de Pedra, ela
seria, quando muito, medieval.
Os
suevos e os visigodos não vieram trazer grandes modificações, no entanto, a
província vai perdendo importância em favor do convento, que acaba por ser
garantido pela organização episcopal que o sobrepõe, fundando vários
bispados dentro da mesma área conventual.
Quando
os visigodos chegaram à Península professavam o arianismo. Em 587, Recaredo
converte-se ao cristianismo ortodoxo e, a partir desta altura, passam a usar uma
outra arma, a fé. Em nome dela vão fundar vários mosteiros que acabaram por
se tornar, na Idade Média, focos de grande desenvolvimento cultural.
Na
batalha de Guadalete, em 714, acabava o império visigótico derrotado pelos árabes,
os poucos sobreviventes vão-se refugiar nas Astúrias, onde sob a liderança de
Pelágio vão organizar o centro de resistência aos invasores. A Reconquista
Cristã começou, em meados do séc. VIII, partindo do pequeno reduto no Norte e
recuperando várias terras até alcançarem a Lusitânia, decorria o reinado
de D. Afonso 1. Mas os muçulmanos ripostavam de imediato com a violência que
lhes era característica, fazendo recuar os cristãos. E foi assim que, durante
quase um século, a maior parte da Galiza se tornou num permanente campo de
batalha, a destruição grassava por todo o lado.
Só
em meados do séc. IX é que as condições favoreceram uma reorganização e
repovoamento generalizados. Nessa altura, a cidade antiga de Portucale assume a
função de importante centro administrativo e seria o conde Vímara Peres,
por ordem de Afonso III, a chefiar e organizar o povoamento e defesa da mesma.
A
sul do Douro, as terras conquistadas constituíam a província de Coimbra.
Estas, no séc. X, voltaram novamente para as mãos dos árabes, à excepção
da Terra de Santa Maria (hoje Feira) à qual Avintes pertencia, que estava sob a
égide dos duces portugueses.
É
por essa altura que nos aparece a primeira referência à VilIa Abientes, na célebre
Escritura de D. Gundesindo, que se encontra na Torre do Tombo e cuja reprodução
está inserta na parte final desta obra, bem como a transcrição que dela faz
Alexandre Herculano na PMH Diplomata et Chartae Aqui, vamos citar apenas o resumo que dela Viterbo apresenta:

"No
(ano) de 897, fez Gundesindo uma amplíssima doação ao mosteiro duplex de S.
Salvador da Labra, que estava fundado ab antiquo in ripa maris,
não longe de Matosinhos, e no qual sua filha Adosinda se havia feito
religiosa.
Entre
outros muitos bens, se nomeiam as igrejas de Santa Eulália de Gondomar, de S.
Pedro de Kauso, e de S. Martinho de Valongo: e isto ad Fratres, ei Sorores, qui
ibi sunt avitantes, vel qui ibidem Dominus superduxerint, et in vida Sancta
perseberint, sub manus de ipse Abba, et de ipsa filia mea, jam superius
nominatis protestando, que é a sua expressa vontade, que em nenhum tempo, e
debaixo de qualquer pretexto, se possam estes bens vender, dar, doar, ou por
qualquer modo alienar do dito mosteiro, etc. Facta series annitio Testamento
nodum die erit VHH K Marcius, Era, D. CCCXKXV". Nesta mesma doação se
relata, que Gundesindo era filho de Ero, e casara com Enderquina Pala, filha
do Capitão Mendo Guterres, da qual teve estes filhos: Sueiro, Ermisinda,
Adosinda e Froilo: e que esta nascera tão aleijada, e contrafeita, que se não
podia assentar. O que atribuindo seus pais a castigo das suas culpas, libertaram
seus escravos, e separaram a quinta parte dos seus muitos bens, com que
fundaram, e largamente dotaram três mosteiros nas suas próprias terras, a
saber: o de S. Miguel Arcanjo e seus companheiros, em Azevedo, e o de S. Cristovão
e seus companheiros, em Sanganhedo, onde havia uma antiga igreja de Santa Eulália
(ambos entre Vouga e Douro), o de S. Pedro de Dide, entre Douro e Tâmega, os
quais entregaram ao abade D. Desterigo, para que neles fosse religiosa sua filha
Froilo, debaixo da obediência da Abadessa D. Gelvira, dando-lhe cem escravos
forros, entre homens e mulheres, para que a servissem enquanto fosse viva. E
que, ficando viúvo Gundesindo, ele e sua filha Adosinda fundaram o Mosteiro de
Santa Marinha de Avintes, ao qual doaram esta mesma vila. E que a mesma
Adosinda (da herança que lhe coube de sua mãe) fez doação de algumas
herdades e igrejas aos mosteiros de S. Miguel e de S. Cristovão, antes que
fosse para a Labra. Documento de Pedroso".
Este
tão extenso documento suscita muitas dúvidas e foi, inclusive, mal
interpretado, quer pelo autor da "Beneditina Lusitana", quer pelo
autor da "Crónica da Companhia de Jesus" em 1555, mas teremos
oportunidade de voltar a este assunto.
Comecemos
então a análise detalhada deste diploma precisamente pelo seu ponto mais polémico
- a data, que está nitidamente incorrecta, uma vez que, os factos apresentados
na escritura não são coincidentes com a verdade histórica. O reputado historiador
José Mattoso, no seu comentário à "Beneditina Lusitana" diz o
seguinte:
"Data
certamente errada, como já fizeram notar Avelino J. da Costa, O Bispo D. Pedro
e a Organização da Diocese de Braga, 1 (Coimbra, 1959), 419; Claudio Sanchez
Albornoz, Estudios sobre las instituciones medievales espanolas (Mexico, 1965),
329, nota 37; idem, Despoblacíon e repoblacion del vaíle del Duero (Buenos
Alres, 1966), 240, nota 100; Wolf Dieter-Lange, Philologische Studien zur
Latinitaet welthispanischer Privaturkunden des 9.- 12. Jahrhunderts (Leida,
1966), 50, nota 131 (reproduzindo a opinião de H. de Gama Barros, História da
Administração Pública em Portugal, XI, 2.ª. ed., 343). O primeiro pensa que
o documento se devia datar de 914-924, mas sem reparar que fala de Ordonho II no
passado; o segundo, que o escriba esqueceu um L, o que daria E. DCCCCLXXXV, isto
é, A. 947, mas depois admite também como possível a correcção A.947; o último,
que o diploma não deve ser posterior a 931, ano em que Ramiro II passa a ser
rei e não apenas príncipe", como aqui se lhe chama. Não há dúvida de
que a primeira hipótese de Sanchez Albornoz é, paleograficamente, a mais verosímil,
tanto mais que se trata de um original; mas ele próprio não a considera muito
segura visto admitir também a correcção A. 937. E de lamentar que não se
pronuncie quanto ao argumento tirado do titulo de 'príncipe" dado a Ramiro
II."
Nós
concordamos com o último autor citado, pois o rei Ordonho de que fala a
escritura só podia ser o segundo, que reinou de 914 a 924, bem como, quando se
refere a Ramiro é, certamente, o príncipe Ramiro que vem a reinar de 931 a 950
como Ramiro II, pois Ramiro 1 reinou entre 842/850, portanto, antes da existência
deste manuscrito. A data correcta situar-se-á por isso, entre 914/924.
Passemos
agora à confusão feita pelo autor da Beneditina Lusitana quando, na transcrição
que fez deste manuscrito refere "Acisterio de Sanganeto vocabulo Santi
Petri Petroso" e o texto correcto é "adcisterio de Sanganeto vocabulo
Santi Christofori" Tudo isto devido a uma cópia errada que lhe chegou às
mãos. O Dr. Osório Gondim, na sua obra "Antiguidades de Avintes",
pensa que terá sido uma alteração intencional feita em Pedroso, para se
apoderarem de mais algumas terras, João Pedro Ribeiro pretende que teria sido
um erro de leitura. O certo é que, o que constava no original era mosteiro de
S. Cristóvão de Sanguedo, e não mosteiro de S. Pedro de Pedroso, que na
altura nem existia.
Uma
outra questão que se levanta em relação a este documento é a palavra duplex
que foi interpretada como significando de ambos os sexos, no entanto, como nos
diz o autor antes citado "...semelhante cláusula não significava
necessariamente mosteiro duplex, nascendo esta cláusula da ampla vontade dos
padroeiros de fazer mudar de habitadores dos mosteiros quando bem lhes apetecia,
querendo portanto os doadores prover a este caso; para se conservarem no
mosteiro os bens doados, ainda que por ele passassem pessoas de diverso
sexo".
Abandonando
agora a interpretação deste pergaminho e as confusões que ela suscitou,
gostaríamos de nos reportar novamente ao Mosteiro de Santa Marinha de Avintes,
ao qual foi doada a aldeia com o mesmo nome, como testemunha a escritura.
Este
mosteiro, que devia ter sido beneditino como todos os que conhecemos desta época,
segundo Pinho Leal, localizar-se-ia na Quinta do Paço. Osório Gondim, na obra
várias vezes citada corrobora esta opinião argumentando "...hoje ali
existe um lugar com o nome de Avintes, que fica, como se sabe, entre Paço e
Espinhaço. Não será de supor que fosse ali a velha Abientes?. .0 mosteiro não
deveria ficar muito longe da aldeia de Avintes..." e a Quinta do Paço fica
realmente perto deste lugar.
No
entanto, estamos no domínio das hipóteses, uma vez que não há absolutamente
nenhum documento que nos elucide acerca da localização deste mosteiro, nem da
sua tão efémera existência.
Os
nossos arquivos encerram fontes inéditas que poderiam lançar luz sobre muitas
questões que subsistem ainda na nossa história mas, para isso, necessário
seria que o acesso a estas fosse facilitado e não dificultado, como muitas
vezes aconteceu no decurso da pesquisa para a realização deste trabalho.
Voltando
ao assunto pendente, não podemos esquecer que a conjuntura desta época é de
guerra e de instabilidade. Em 997, Almansor destruiu o Porto e, claro, todas as
povoações que se desenvolviam sob a sua protecção, como Avintes, Crestuma
etc., seguiram o mesmo nefasto destino. Teria sido provavelmente nessa altura
que o mosteiro de Santa Marinha de Avintes conheceu o seu fim e que o mosteiro
de Pedroso se terá apossado das terras, então sem dono.
Deste modo, pode-se compreender como é que a escritura de Gundesindo fazia
parte dos documentos de Pedroso e que, inclusive, o nome deste passasse a
constar do pergaminho, como já vimos. Estamos, porém, apenas no campo das
especulações.
Ana
Filomena Leite Amaral - "Avintes na Margem Esquerda do Douro"
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