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Para
utilizar uma expressão do antigo Cascateiro de Avintes, Sr. José Pereira
da Silva, o "Canhota", Avintes é ela própria uma autêntica
cascata natural. De facto, esta freguesia do concelho de Vila Nova da Gala,
que se estende pelos morros da confluência do Douro e do Febros, como que
contida entre dois rituais de água, (e a água é um elemento constante na
vida das cascatas), guarda em si muitos dos elementos e características que
encontramos nessas representações populares dos festejos de S. João.
Registe-se
a este respeito, que alguns sinais positivos têm surgido, a transmitir
esperança, por exemplo da Associação Cultural dos Amigos de Gala
promovendo concursos, dos Bombeiros Voluntários e Junta de Freguesia de
Avintes, da Casa Museu Teixeira Lopes, de Vila Nova de Gala, e, do Centro de
Artes Tradicionais, fazendo encomendas aos cascateiros e convidando-os a
expor nos seus espaços. Mas é pouco ainda para o que seria necessário,
sobretudo se tivermos em conta a idade dos cascateiros, quase todos já avançados
nos anos, e o futuro desta manifestação popular, tão eloquente, tão
cheia de vida e de cor. Torna-se urgente fazer escola, transmitir o
conhecimento para que ele perdure. E ai, ca novo nos saem do ouvido as
palavras do referido decano dos cascateiros: "O que eu gostaria de
fazer era ensinar, mas era preciso que o Estado me pagaste". A Cascata
é, na sua cosmogonia, tomada no seu conjunto, como um pequeno mundo, um
mundo em muito criado e recriado á semelhança do existente na realidade,
(os figurantes que encarnam as diferentes profissões e situações, os
morros e as encostas rasgadas pelos rios e que constituem o retrato fiel da
paisagem da região a que pertence), e aqui e ali um toque da imaginação
bailadeira, uma situação nova, um engenho ou maquineta capaz de pôr em
movimento tudo aquilo. Acerca
das cascatas, o Dr. Luís Chaves, no seu trabalho "As Cascatas do S. João
no Porto", quando estabelece a comparação entre elas e os Tronos de
Santo António, refere: "Comparando a Cascata com o Trono, lembro-me de
ter visto "cascatas" reduzidas á presença da imagem de S. João,
a outras com o homenageado no alto ou no centro e figuras populares, desses
bonecos de barro, que no Porto e em Gala se fizeram, e continuam a fazer com
persistência em Gala".
Cremos
no entanto, que se é verdade que S. João é a figura mais importante e a
essencial das cascatas, ele por si só, posto num trono, não constitui uma
verdadeira Cascata. Porque a cascata, no significado da manifestação
popular que representa, (os festejos em honra de S. João), implica uma
ideia de conjunto, todo um ambiente de cenário natural e figurantes unidos
e participantes na festividade do seu Santo maior. Rio e encostas, romeiros
e festeiros, que de uma romaria se trata, pelo menos estes, e o Santo,
claro, símbolo chave, são elementos essenciais. Aí,
depois, é a imaginação de cada um, de cada cascateiro, que faz o resto,
compondo e decorando conforme a sua feição, escolhendo entre Moinhos de água
ou de vento, pontes no rio, conferindo a este mais ou menos curvas,
integrando diferentes ofícios na representação, quer seja o Sapateiro ou
o Padeiro, o Ferreiro ou o Moleiro, ou a grande variedade de Vendedeiras.
Inventando e reinventando cenas, cantos e recantos, quanto mais ricos e
possuidores de vida, melhor. Seja uma Eira onde se malha o centeio, ou
Rusgas dos festeiros com balões, os pescadores a pescar á cana, ou outros
e diversos motivos.
E
neste buscar de pormenores, no recortar de toda um infinidade de detalhes
que nessa festa existem e na leitura que deles se faz, (no que significam e
no papel que desempenham no mundo real), que se realiza o maior quinhão da
criatividade da arte do cascateiro. Por isso se torna difícil de fazer, a
tal enumeração destrinçadora dos elementos essenciais e não essenciais
nas cascatas, neste caso nas Cascatas de Avintes. Contudo, pensamos
considerar como presentes em todas as Cascatas de Avintes, os seguintes
elementos: -
No cenário: o Rio e as encostas, o Musgo e a Verdura. -
Completando a estrutura do forro: Ramos de carvalho e Balões para o S. João. -
Nas figuras de profissão: o Moleiro, a Lavadeira, o Pescador, as
Vendedeiras e o Pastor. -
Nas figuras de conjuntos: a Procissão, a Banda de música e as Rusgas. -
Nas figuras de humor: o Cagão e a Leiteira apanhada a urinar no canado do
leite. -
Nas construções: o Trono de S. João, o Castelo, as Casas de Lavoura e
Igrejas ou Capelas de Avintes. -
Nos engenhos de movimento: o Moinho de vento ou de água, a Fonte, o
Chafariz, S. João a baptizar Cristo. Existem
teias de ligação entre todas estas personagens e elementos. O cenário,
retrato, paisagem natural da região a que pertencem as cascatas. O musgo,
ramos de carvalhas e a verdura têm também a ver com todas as tradições
de aromas e ervas mágicas, (como a erva-cidreira, o alho porro e o
manjerico, por exemplo), indissoluvelmente ligadas ao S. João e utilizadas
no decurso da noite feiticeira, e até talvez mesmo com a ruralidade do
Santo festejado, que viveu num ambiente rústico, campesino. Os
três Santos, que têm a sua festa popular, com destaque para o S. João,
que é o celebrado nas cascatas.
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